Material de construção é até 72% mais caro no Rio em relação a São Paulo

O preço do material de construção subiu 8,81% em 2020, segundo o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-DI), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Mas, em mercados menos competitivos, como o do Rio de Janeiro, a alta de alguns itens foi tão expressiva que o consumidor mais atento tem achado mais vantajoso comprar esses produtos em São Paulo. De acordo com dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), a diferença de preços chega a 72% (veja na tabela abaixo).
 
Construindo uma casa na Zona Oeste do Rio, o geofísico Yan Borges, de 31 anos, pesquisou preços e acabou comprando lajes pré-moldadas de concreto no estado vizinho. Mesmo pagando um frete de R$ 3 mil a R$ 4 mil para fazer a entrega, ele conta que o preço final valeu a pena:
— Economizei aproximadamente R$ 800. Em São Paulo, as lajes estavam, em média, 20% mais baratas. Como os materiais estão em falta, quem tem está cobrando muito caro. Em outros estados, há mais oferta. O fornecedor que eu encontrei em São Paulo tinha todos os produtos em estoque. Provavelmente por isso conseguiu reduzir o valor. No Rio, nenhuma empresa tinha.
A alta do preço aconteceu pela demanda inesperada no varejo durante a pandemia, com famílias fazendo reformas e construindo casas. A produção acabou entrevada pela falta de matéria-prima que, quando chegou, ficou bem mais cara.
 
No Rio, o cenário se agravou por problemas estruturais do mercado local, explica Waldir Abreu, economista e superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco):
— O mercado fluminense é menor e menos competitivo do que o paulista. Enquanto a indústria em São Paulo é sempre ativa e tem cerca de 36 mil lojas, no Rio, a demanda vai e volta, e o estado não chega a ter 15 mil pontos de venda. Fora isso, há os problemas de logística, roubo de carga, seguro mais caro, frete mais caro. O consumidor é penalizado.
 
Redução de 18% no custo da construção
Professor do Ibmec RJ e sócio da empresa MTekton Arquitetura, o arquiteto Marcelo Vinícius Gomes conta que também costuma comprar material de construção em São Paulo, onde consegue reduzir em 15% a 18% o custo de itens como pedras industrializadas, louças e metais.
— Compro direto dos fornecedores e já fecho uma carreta que vem lotada, porque o custo fica muito menor.
Com indústria e mercado de construção civil maiores, São Paulo estava mais preparado para atender ao aumento da demanda, o que ajudou a controlar os preços, que já eram mais baixos mesmo antes da pandemia.
— Teve um aumento na construção no Rio, setor que antes estava em baixa. Então houve um disparo. Enquanto em São Paulo tem um mercado mais constante — afirma Wanderson Leite, presidente da Prospecta Obras, startup de tecnologia para a construção.
Já os lojistas do Rio reclamam que o estado possui custos mais altos.
— Temos constantemente alterações no ICMS, decorrente da substituição tributária. O estado foi um dos pioneiros na cobrança do Fundo de Combate à Pobreza, que tem adiciona 2% ao ICMS — afirma Dalva Souza, presidente da Chatuba, rede de lojas de materiais de construção.
 
É preciso se planejar
Presidente da Chatuba, Dalva Souza afirma que, para quem pensa em realizar a compra do material de construção em outro estado, é importante levar em consideração algumas questões, como o custo total do orçamento, inserindo o valor do frete e comparando com o custo final de qualquer loja do Rio.
— Além disso, é importante avaliar o risco de ter que recomprar qualquer insumo da obra em quantidade menor, e o mesmo não ser comercializado nas lojas locais. Além de o volume mais baixo inviabilizar a entrega, a obra poderá ficar paralisada — alerta Dalva.
Para evitar problemas como esse, o arquiteto Marcelo Vinícius Gomes ressalta que planejamento é fundamental, inclusive para garantir o menor preço. O ideal, segundo ele, é criar uma planilha que permita comparar os preços entre as lojas, e visualizar aquela que realmente oferece o valor mais baixo.
— Temos uma planilha com, no mínimo, três fornecedores diferentes, e assim conseguimos monitorar. Em alguns casos, por exemplo, pode valer a pena comprar todos os itens em um mesmo fornecedor, ainda que um dos produtos esteja mais caro nesse lugar, porque o preço total está mais barato. Comprando em quantidade, o cliente também tem o poder de negociação — ensina Gomes, ressaltando que comprar em lojas tende a sair mais caro do que diretamente com a fábrica.
 
‘O setor se surpreendeu, mas vai pagar o preço’
Waldir Abreu, economista e superintendente da Anamaco
“O preço do material de construção não deve cair. O cimento ficou cinco anos sem reajuste. O que está previsto é uma estabilidade de valores, com a diminuição de consumo. Não há espaço para os preços subirem mais. O setor se surpreendeu em 2020, mas vai pagar o preço em 2021, porque quem tinha que fazer alguma reforma ou obra já fez e, agora, o auxílio emergencial acabou. É preciso haver reformas estruturantes, porque senão vamos ter o impacto do desemprego e da inflação em alta, com as pessoas endividadas.”